Eu

Eu

domingo, 22 de junho de 2014

Os rótulos sexuais estão chegando ao fim?

Aos 27 anos, o paraense Joseph Campestri, morador de Brasília, descobriu que era g0y (g-zero-y). Ele gosta de outros homens, troca carícias íntimas com eles, mas não se considera gay. Sexo, só com mulheres. Foi em um grupo na rede social Facebook, em 2011, que Campestri descobriu que existiam outras pessoas assim, autointituladas g0ys. O termo surgiu nos Estados Unidos, por volta dos anos 2000 e, dez anos depois, chegou ao Brasil por meio de blogs. Em novembro do ano passado, a página do Facebook "Espaço G0ys e afins" contava com 43 participantes. Hoje, esse grupo é uma das principais comunidades de g0ys por aqui, com 1 994 perfis. Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Salvador e Belo Horizonte são as cinco capitais que mais concentram g0ys, de acordo com estatísticas dos blogs e redes sociais onde eles se apresentam.
"Os g0ys não se enquadram nos padrões heterossexual, homossexual ou bissexual", diz Campestri, de 30 anos, um dos líderes do movimento no Brasil e o criador de sua bandeira, com faixas em tons de azul. A maior parte dos g0ys se diz hétero e mantêm relacionamentos com mulheres – alguns são até casados. "Os homens com os quais me envolvo na privacidade podem ter qualquer orientação sexual, isto é, podem ser g0ys ou não. Posso me relacionar com todos os homens por quem eu me sinta atraído."
Pessoas como Campestri mostram que as fronteiras entre as orientações sexuais heterossexual, homossexual ou bissexual são, cada vez mais, colocadas à prova. O Facebook adicionou, em fevereiro deste ano, uma opção customizada para os usuários que escolhem o inglês americano como idioma dando a eles 50 alternativas de gênero. A pessoa pode se definir como andrógina, transexual, pangênera, fluida, entre outras denominações. No início de abril, a Suprema Corte da Austrália concedeu a uma pessoa nascida homem, que fez a cirurgia de mudança de sexo, a opção de gênero "não-específica".
A multiplicação do sexo — À primeira vista, essa confusão entre gêneros, orientações e expressões sexuais é um fenômeno recente. Mas, para os cientistas que estudam o comportamento humano, a época em que vivemos — com muitas informações circulando nos meios de comunicação — apenas deu visibilidade a práticas que há muito são vividas na intimidade.
"Hoje, com o estigma e os preconceitos diminuindo, as pessoas se sentem mais livres para falar de sexo e declarar suas preferências", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). "O mundo está ficando menos dicotômico e passamos a questionar o que significa ser homem ou mulher. E, agora, vamos ter que encontrar formas de lidar com todas essas formas de sexualidade que estão aparecendo."
Outro fator que colaborou para tirar da sombra comportamentos que fogem do tradicional foi o avanço da ciência, que mostrou que nem todas as atitudes distantes do convencional são doenças ou transtornos. "Somados, os elementos sociais e biológicos estão mostrando que os homens podem ter um comportamento sexual mais variado do que, tradicionalmente, se acreditava", afirma a psiquiatra Alessandra Diehl, coordenadora da Pós-Graduação em Transtornos da Sexualidade e Saúde Sexual da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). "A sexualidade é uma área fluida."
Inúmeros caminhos — De acordo com os médicos e psiquiatras, sexo biológico, gênero, orientação e expressão — elementos que formam o comportamento sexual humano — não são opções divididas apenas entre o feminino e o masculino. São gradações e podem ser combinadas, dando origem a inúmeras possibilidades. E isso é verdade mesmo para o sexo biológico. Enquanto a maioria das pessoas nasce com órgãos sexuais de apenas um dos gêneros, outras vêm ao mundo com os dois (os hermafroditas) e há aquelas que nascem com o órgão feminino, mas têm resquícios do masculino e vice-versa.
Mas o campo que pode ganhar mais definições e denominações diferentes é o da orientação ou preferências sexuais, isto é, o sexo por quem uma pessoa se sente atraída. Além dos tradicionais LGBT para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, já há novas classificações em inglês que incluem ao final da sigla as letras QIA, que significam "questionando", "intersexo" (equivalente ao hermafrodita) e "assexuado".
Tantos nomes novos, obviamente, não querem dizer que homens e mulheres heterossexuais possam ser considerados "uma minoria entre outras". "É importante notar que, em todas as culturas ao redor do mundo, o comportamento homossexual é minoria. O que estamos descobrindo é que, talvez, ele não seja tão raro quanto imaginávamos", explica o médico Amílton dos Santos Júnior, pesquisador do departamento psiquiatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "A parte majoritária da população é heterossexual, embora mesmo esses possam ter experiências que fogem a essa norma. Admitir uma experiência sexual com alguém do mesmo sexo não torna uma pessoa homossexual ou de outro gênero."
História do sexo — A enorme variação entre as orientações sexuais foi identificada pela primeira vez nos anos 1950 pelo biólogo americano Alfred Kinsey (1894-1956), pioneiro em estudos sobre a sexualidade humana. Reunindo cerca de 18 000 entrevistas de pessoas das mais variadas classes e profissões, feitas a partir dos anos 1930 até sua morte, o cientista elaborou a Escala Kinsey, que ia de um comportamento exclusivamente heterossexual até o exclusivamente homossexual. Entre os dois extremos, identificou cinco gradações, que mesclavam as duas atitudes: heterossexuais com alguns eventos homossexuais, heterossexuais com muitas relações com o mesmo sexo, bissexuais, homossexuais com muitas relações heterossexuais ou homossexuais com raros eventos heterossexuais.
Atualmente, psicólogos e psiquiatras identificaram muito mais que as sete categorias definidas por Kinsey. Além de serem numerosas — os especialistas chegaram à conclusão que as diversas possibilidades não são fechadas em um número único ou finito — elas ainda podem mudar ao longo da vida. "O que ocorre é que, predominantemente, nos sentimos atraídos por um sexo, mas, incidentalmente, podemos gostar de outro", explica Alessandra. "A ciência nos dá indícios para acreditar que a orientação sexual é inata. Nascemos com tendências, mas elas vão se transformando ao longo da vida, de acordo com as influências e experiências de vida."
Pan-gênero — Desde criança, Föxx Salema, de Bragança Paulista (interior de São Paulo), sabia que o sexo com que nasceu não correspondia a seus sentimentos e inclinações. Nasceu homem, mas sentia-se mulher. Aceitar essa situação causou inúmeros conflitos na adolescência. Entrou em depressão, tentou se matar e demorou a aceitar que era transgênero.
Hoje, aos 36 anos, é vocalista de uma banda de metal e hard rock, tem feições masculinas e define-se com identidade feminina. Embora não queira mudar de sexo ou adotar uma aparência de mulher, pede para que os interlocutores usem o pronome "ela" nas conversas e afirma que se relaciona com "pessoas" — homens, mulheres, travestis ou transgêneros. Föxx diz que as dúvidas a respeito de sua identidade só tiveram fim há poucos anos quando, pelas redes sociais, encontrou outras pessoas que também não se encaixam nas categorias fixas de homem, mulher ou gay.
Base biológica — Historicamente, os debates sobre orientação sexual se dividem entre os que afirmam que alguém nasce gay ou torna-se assim de acordo com as influências do ambiente onde vive. Para resolver o embate, desde os anos 1990, os cientistas buscam identificar bases biológicas para a variedade sexual que existe entre os seres humanos. Alguns, como o neurocientista anglo-americano Simon LeVay, resolveram levar a cabo estudos sobre as diferenças entre os cérebros de gays e heterossexuais para mostrar como a mente humana processa os impulsos sexuais.
Em 1991, o pesquisador examinou o hipotálamo de homens gays — mortos pela aids — e descobriu que uma estrutura chamada INAH-3 era de duas a três vezes menor que a de heterossexuais. Essa região costuma ser também menor em mulheres que em homens. Apesar de questionada pela comunidade científica — não se sabia se a diferença estava relacionada à experiência gay ou à doença — essa foi uma das primeiras evidências de que a orientação sexual pode ter origem biológica.
"Se olharmos as centenas de estudos que foram publicados nos últimos anos, eles apontam que eventos ocorridos no cérebro antes do nascimento têm forte influência na orientação sexual de alguém. Há genes e hormônios sexuais envolvidos nesse processo", diz LeVay. "Ninguém tem o poder de escolher seus sentimentos sexuais — ou seja, por quem é atraído. A escolha está no que fazer com essas emoções: definir o comportamento sexual, relacionamentos ou como se apresentar à sociedade."
Genética sexual — A maior parte das pesquisas atuais relacionadas à orientação sexual concentra-se na genética. Alan Sanders, pesquisador da Universidade de Northwestern, nos Estados Unidos, terminou este ano o maior estudo genético já realizado sobre o assunto. Reuniu 400 irmãos gays (pouco mais de 800 homens) e, durante dez anos, estudou o DNA dessas pessoas para tentar descobrir se há componentes genéticos que definem se alguém é homossexual. Os primeiros resultados da pesquisa, ainda não publicados, confirmam as pesquisas de Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, chamado de pai do "gene gay". Em 1993, Hamer viu que uma região do cromossomo X, chamada Xq28, era igual em muitos irmãos homossexuais. O estudo de Alan Sanders descobriu não um, mas dois cromossomos que aparentemente influenciam na orientação sexual: o Xq28 e o cromossomo 8.
No entanto, o pesquisador é categórico ao afirmar que a orientação sexual não é determinada apenas pela genética ou pela biologia. O ambiente social, cultural, familiar e as experiências psicológicas também têm forte influência. "Há muitas contribuições ambientais sobre as quais sabemos muito pouco. O que sabemos com certeza é que a escolha da orientação sexual não é consciente ou maleável. Elas são congênitas, naturais e definidas muito cedo", afirma Sanders.
Característica natural — Desde 1973, a Associação Americana de Psiquiatria não considera mais a atração por pessoas do mesmo sexo uma doença — foi quando homossexualismo virou homossexualidade. Até 2012, estar em um corpo de um gênero e sentir-se em outro era considerado um transtorno. Desde o início do ano passado, entretanto, o transtorno de identidade de gênero tornou-se uma disforia, ou seja, uma angústia por pertencer a um corpo que não é o seu. A denominação, adotada no Dicionário de Saúde Mental (DSM-5), manual feito pela associação americana, deve ser revista também pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11), que deverá ser publicada em 2015 pela Organização Mundial de Saúde.
Para parte dos especialistas, porém, não pertencer à definição anatômica do sexo biológico ou não enquadrar-se nos gêneros binários tradicionais não é sequer uma angústia. É apenas mais uma característica, natural, encontrada em todos os animais.
Para o psiquiatra Alexandre Sadeeh, coordenador do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), as possibilidades sexuais humanas são tantas que as diversas denominações jamais darão conta de nomear a todas. "Tantas divisões esvaziam o tema. Quem sofre por estar em um corpo em que não se reconhece pode se submeter à cirurgia, feita com acompanhamento e tratamento gratuito no Brasil desde 2008. No entanto, é importante saber que há milhares de variações e combinações possíveis. A biologia dá a base determinante e muitos outros fatores agem para variá-la."
"Estamos em uma fase de transição em que comportamentos e expectativas sociais e sexuais estão se transformando. É um período em que os parâmetros parecem ter desaparecido e isso, não necessariamente, vai permanecer", afirma a psiquiatra Maria Inês Lobato, coordenadora do Programa de Transtorno de Identidade de Gênero do Hospital das Clínicas de Porto Alegre e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Os padrões típicos do que é ser homem ou mulher mudaram, mas ainda não estão definidos. É uma discussão que ainda vai nos acompanhar por um bom tempo."





Fonte; Veja


O que tem por trás da histórica capa da Time com a atriz transexual Laverne Cox

Muita gente ainda não conhece, nunca ouviu falar e nunca compartilhou nada sobre Laverne Cox, a atriz norte-americana que foi destaque da série Orange is the New Black, produzida e exibida pela Netflix. Mas nessa quinta-feira, 29, o nome da artista foi citado a revelia por um feito histórico: ser capa da tradicional revista Time. A surpresa dá-se porque Laverne, assim como a sua personagem, é uma mulher transexual. E o tema “O Ponto de Virada da Questão Trans” é anunciado como o próximo debate sócio-político a marcar a agenda americana, depois da questão racial nos anos 50 e da orientação sexual nas últimas décadas.
Primeiro, é preciso informar que a Time lamentavelmente cometeu uma falha na edição passada ao ignorar e deixar de fora Laverne na tradicional lista das “100 Pessoas mais influentes de 2014”, apesar de ela ter ficado em quinto lugar na votação online e de ter recebido mais de 91,5% de aprovação do público [veja ao lado]. Depois, é necessário refletir sobre como a atriz trabalha a própria visibilidade e conquistou a admiração dos espectadores - pois é, mais de 90% - a ponto de gerar uma onda de protestos e motivar a Time a dar uma CAPA como um autêntico e histórico pedido de desculpas. Aceitas, claro.


Mas por qual motivo Laverne se tornou referência, já que não é a primeira vez que pessoas trans ganham a mídia internacional? 

Ao contrário de tantas figuras que bombam por aí e que investem no discurso chapa-branca, de preconceito internalizado, de ignorância ou de pura vaidade e competição, Laverne é exemplo por aliar talento dentro de um projeto de sucesso, ter orgulho de ser quem é e, sobretudo, nutrir coragem para se engajar em uma causa social malvista [e não ignorá-la como a maioria]. É evidente que nenhuma pessoa é obrigada a levantar bandeiras – ninguém é obrigado a nada – mas também é óbvio que já passou da hora de termos uma celebridade à lá Angelina Jolie dentro do universo trans. E não estamos falando de lábios carnudos. 

Uma artista engajada, corajosa, talentosa, bem humorada, influente, com fôlego e consciente de que faz parte de um grupo historicamente marginalizado e que, por esse motivo, necessita investir em um discurso afiado, inédito, desafiador e transformador. Desde que seu nome começou a se tornar conhecido, Laverne passou a utilizar de sua visibilidade para mudar um pouco a maneira como a mídia e como as pessoas cis entendem as pessoas trans. Ela transcendeu o debate e não se sujeitou a ele. E o melhor: para melhor.

TALENTO ALIADO À CONSCIÊNCIA

É importante frisar que a artista ganhou visibilidade pelo talento e não tão somente por sua vida pessoal. Graduada em Belas Artes pela Alabama School, ela participou do primeiro filme, Cinnamon, em 2011, e acumula seis trabalhos até o momento. Já na pele de Sophia Burse, em “Orange”, de Jenji Kohan, ela dá vida a uma cabeleireira que foi presa após fraudar cartões de crédito para realizar a cirurgia de redesignação sexual [a mudança de sexo]. Desenvolveu uma personagem cheia de nuances, personalidade e comoventes dramas – como a delicada relação com o filho, a mulher e a proibição de tomar hormônios dentro do presídio. 

Dirigida pela renomada atriz Jodie Foster, foi além do rótulo “personagem trans” e não ficou devendo absolutamente nada para nenhuma outra atriz cis da série, nem à protagonista Taylor Schilling, que interpreta Piper Chapman. Outra curiosidade é que, nas cenas em que a personagem não fez a transição, é o seu irmão gêmeo, o músico M Lamar, que interpreta e faz a dobradinha com Laverne. "Nós temos um vínculo muito forte e um respeito pelo outro. Fiquei grata por dividir com ele esse momento na série".

Depois da repercussão, começou a ser requisitada para entrevistas e teve a sensibilidade e inteligência de entender que, ao falar sobre si mesma na mídia, também falaria por um grupo historicamente discriminado. Era preciso, então, livrar-se do senso comum, da fútil vaidade, do discurso higienizador, da vergonha de não estar em uma categoria mais aceita, da transfobia e do racismo internalizados – sim, porque a sociedade em geral é transfóbica e racista, logo todos são afetados e reproduzem preconceito, mesmo que inconscientemente. Inclusive travestis, transexuais e negros.  
Em uma conferência por telefone à imprensa em 2013, Laverne admitiu que precisou se livrar dos preconceitos internalizados para falar sobre o assunto: “Comecei a trabalhar com um terapeuta e ele é brilhante. Trabalhei muito as minhas questões internas, venci a transfobia internalizada, o meu racismo internalizado e também a vergonha. Eu gosto mais de mim agora”. Foi aí que ocorreu a importante virada, a promoção da visibilidade com consciência e o resgate ao direitos civis.

O DISCURSO DA VIRADA

Durante a entrevista a Katie Couric, a atriz e a modelo Carmen Carrera deixaram os telespectadores de boca aberta ao se negarem responder se haviam realizado a cirurgia de redesignação sexual – um patrulhamento frequente e nada inocente da mídia mundial. “Sinto que há uma preocupação com isso [genitália]. Essa preocupação faz com que pessoas trans sejam tratadas como objetos e com que as demais pessoas não encarem a vida que levamos. A verdade é que a taxa de desemprego e de homicídio que sofremos é desproporcional à média. E se você for trans e negra esse número é quatro vezes mais. Enquanto focarmos em partes do corpo, as pessoas vão ignorar esta realidade e não vamos falar realmente sobre o que é importante”, defendeu Laverne.

O discurso faz lembrar a breve tentativa do ícone brasileiro Roberta Close em estabelecer respeito em 1996, durante o Domingão do Faustão, da TV Globo. Depois de ser perguntada se “o prazer sexual mudou depois desse tipo de operação”, Roberta disse: “Só se você provar... Isso é um segredo, isso só diz respeito a mim e ao meu marido. Sexual não [quero falar]”. Mas o apresentador não teve a sensibilidade de entender o que Roberta disse, a modelo não teve o molejo do discurso e o que ficou foi um momento constrangedor, com Faustão finalizando “Um risco quer dizer Francisco”. A
o contrário da resposta de Laverne, que foi o gatilho para que muita gente a aplaudisse e começasse a se questionar sobre a ignorante abordagem ao grupo.

Afinal, quantas vezes assistimos [e aplaudimos] entrevistas com trans pautadas nas cirurgias plásticas, como se a identidade só representasse esse tipo de luta? Quantas vezes essas pessoas trans são perguntadas se irão se submeter à redesignação sexual ou como ficou o resultado, como se fosse comum perguntarmos detalhes sobre o genital alheio? Ou então se há a continuidade do orgasmo, como se todas as pessoas trans estivessem sempre dispostas para falar sobre sexo? Quantas definem travesti como profissão, referindo-se à prostituição. Quantas mídias se propõem a falar sobre o “inusitado e bizarro caso amoroso” de um homem com uma travesti, que normalmente termina em acusações? Quantas vezes vemos pessoas trans sendo ridicularizadas em matérias policias, sendo que nunca vemos uma em reportagens rotineiras sobre o aumento do tomate? 

Por fim, quantas vezes pegamos pessoas dizendo que uma trans “engana muito bem” e que “até parece uma mulher de verdade”, como se esse comentário ofensivo fosse elogio?

A LUTA CONTINUA

Laverne segue com o discurso em prol dos direitos lgbts sempre que perguntada em entrevistas. Mas nem sempre os louros são colhidos. Uma prova de que não estamos acostumados a ver trans em destaque é que, além de sua ausência na lista dos influentes da Time, a própria revista gay Advocate, que lista anualmente os LGBT mais poderosos do mundo, não colocou Laverne entre os oficiais. A atriz foi inclusa como uma das “apostas”, ao lado das trans Carmen Carrera e Janet Monk. Como se pessoas trans fossem café com leite, não valessem pra valer.

Durante a homenagem que recebeu pelo GLAAD, em abril, ela declarou: “Sou uma mulher transexual e afro-americana de uma classe operária criada por uma mãe solteira. Nós não estamos habituadas a receber esse tipo de prêmio, mas quero que acreditar que as coisas vão mudar”, declarou ela que, profissionalmente, também está feliz. Ela vai estrelar a segunda temporada de Orange is The New Black, que estreia  no NetFlix. 
Hoje, artistas trans internacionais, como o ícone nova-iorquino Amanda Lepore, ficam longe da competição de egos, compartilham e torcem para o sucesso de Laverne. 

Na Time, não deixou a vaidade tomar conta, falou sobre as vivências e também motivou outras entrevistas de pessoas trans. Disse: “Não existe apenas uma história, uma experiência, de como uma pessoa trans nasce. O que as pessoas devem entender é que nem todo mundo que nasce com uma genitália sente que sua identidade de gênero está alinhada àquela genitália. Se alguém precisa expressar o seu gênero de uma maneira diferente, está tudo bem; e a esse alguém não deveria ser negado assistência médica, assim como não deveria ser vítima de bullying. Eles não merecem ser vítimas de violência…E é isso que as pessoas devem entender, que está tudo bem”.


E NO BRASIL?

Embora a maioria das personalidades trans brasileiras não demonstra se preocupar realmente com a causa e a mídia não dê o real merecimento, é preciso destacar artistas que, como Claudia Wonder [1955-2011], são importantes nas artes e no processo democrático brasileiro: Maite Schneider, por exemplo, há décadas alia a arte e a militância, bem como Léo Moreira Sá, Laysa Machado, Leonarda Gluck.

Porém, por aqui, o cenário aparenta ser mais delicado. "É curioso esse cenário no Brasil porque a militância não é vista com bons olhos. [...]A Angelina Jolie, por exemplo, é reverenciada pelo trabalho de militante, mas aqui ela seria vista como barraqueira. Para mim, essa dificuldade é pior, porque tenho uma vida pública e militante. As pessoas acham que estarei com a Constituição embaixo do braço.”, declarou Maite em recente entrevista ao NLucon.

Que o exemplo, discurso e orgulho de Laverne inspirem a imprensa, os leitores e as artistas... Até porque a estratégia de se esconder ou não falar sobre o assunto não é garantia de sucesso, nem de trabalho, nem de importantes mudanças sociais. Só é garantia da histórica perpetuação do preconceito e da falta de oportunidades e visibilidade. Passamos por um PROCESSO histórico. Será que é sonhar muito alto ver Nany People finalmente apresentando um programa de tevê? Que Rogéria tenha muito mais que participações especiais em novelas? Que uma atriz que é trans seja protagonista ou estrele um comercial de pasta de dente? 


Fonte; NLucon 
  

Padre transgênero prega em Catedral Nacional de Washington, nos EUA

Bom depois de um tempo sumida volto trazendo muitos assuntos interessantes é só acompanhar ok.

Um capelão Episcopal se tornou neste domingo (22) o primeiro padre abertamente transgênero a pregar na histórica Catedral Nacional em Washington, nos Estados Unidos.
O reverendo Dr. Cameron Partridge, um dos sete membros abertamente transgêneros do clero da Igreja Episcopal, falou do púlpito de Canterbury em homenagem ao mês do orgulho da comunidade de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, disse a Catedral.
Partridge disse aos congregados em sua aparição como convidado que estava orgulhoso de fazer parte de uma igreja que estava se movimentando para a aceitação de todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual ou identidade.
"Assim como contemplamos uns aos outros nestes dias de celebração, que possamos honrar a nossa forma de apoiar um ao outro", disse ele.
Partridge, que iniciou a transição do sexo feminino para o masculino há uma década, é o capelão Episcopal da Universidade de Boston e professor e conselheiro da Harvard Divinity School.
O reverendo Gene Robinson, o primeiro bispo Episcopal abertamente gay, presidiu o serviço neste domingo (22), que incluiu leituras e orações por integrantes gays, lésbicas e transgêneros da Igreja.
A Igreja Episcopal, um instituição independente dos Estados Unidos afiliada ao Anglicanismo, votou em 2012 para permitir a ordenação de pessoas transgêneras, assim como aprovou a benção ao casamento homossexual.


Fonte; G1


E quando teremos atitudes lindas como essas no Brasil?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Facebook adiciona 50 novas opções de gênero

Interessante...

Dando mais um passo em direção à tolerância e respeito às minorias, o Facebook adicionou 50 novas opções de gênero ao perfil de seus usuários, abrangendo opções como transexual, andrógino ou intersexual. A novidade foi lançada nesta quinta (13), mas, por enquanto, está disponível apenas para os perfis dos Estados Unidos.
O recurso foi anunciado à imprensa por Brielle Harrison, que é engenheira de software do Facebook e passa no momento por tratamentos para mudança de sexo. Segundo ela, a ideia é não dar apenas uma opção binária para as pessoas, que devem decidir apenas entre os sexos masculino e feminino, e sim criar alternativas que reflitam a transformação pessoal e o conhecimento que cada um possui de si mesmo.
Até o momento, a única possibilidade era ocultar completamente a exibição de gênero, um recurso que continuará existindo mas que Harrison acredita não ser mais necessário. Durante a apresentação, ela afirmou que a novidade trazida pelo Facebook pode não significar nada para muitos usuários, mas para uma série de outros, pode representar algo de suma importância.
Segundo informações da Fox News, existem hoje 700 mil pessoas nos Estados Unidos que podem ser classificadas como “transgêneras”, um termo amplo que inclui todos aqueles que assumem um gênero diferente daquele do nascimento. Sendo assim, a novidade trazida pelo Facebook é um passo importante para aceitação desse movimento, pois o reconhece e garante mais dignidade.






Isso, na visão de Chad Griffin, presidente da Human Rights Campaign, é um passo extremamente importante, principalmente quando se leva em conta que, cada vez mais, o perfil do Facebook está atrelado de forma intrínseca à personalidade de cada um. Com as novas opções de gênero, então, os usuários podem se representar na rede de maneira mais autêntica.
Harrison conta que a ideia de adicionar novas opções de gênero ao Facebook surgiu há cerca de um ano, quando os responsáveis pela rede social perceberam um fluxo cada vez maior de usuários solicitando tais mudanças. Páginas, mensagens e pedidos começaram a surgir a todo momento na rede social, o que motivou uma reunião interna e o início dos trabalhos no projeto.
O serviço informa também que, como a mudança de gênero não é catalogada como um evento cotidiano, anunciantes não podem utilizar essa informação para entregar publicidade direcionada. O trabalho também continua: o Facebook pretende se encontrar com líderes de movimentos transgêneros ao redor do mundo para decidir quais termos são mais adequados a cada realidade, antes de implementar a ideia em outras línguas.

Fonte; Canaltech

Facebook transgender options



Brasil é o país líder em assassinatos de travestis e transexuais

Quando isso vai mudar triste saber dessa realidade.



LONDRES/INGLATERRA - O Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo, segundo um relatório da ONG internacional Transgender Europe. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes, quatro vezes a mais que no México, segundo país com mais casos registrados.

O relatório é baseado no número de casos reportados, o que indica que ele pode ser ainda maior e não só no Brasil, mas em todo mundo, já que países como Irã e Sudão não possuem dados disponíveis sobre este tipo de crime.

Para Keila Simpson, da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), o elevado número de mortes no país reflete a falta de uma lei que puna crimes de ódio contra travestis e homossexuais.

'A população LGBTT, principalmente travestis e transexuais, estão sendo dizimados neste país e isso só vai acabar com uma lei que puna estes assassinos', declarou Simpson à Agência Efe durante as ações para o Dia da Visibilidade Trans em Porto Alegre.

De acordo com a militante, a população LGBTT precisa denunciar a situação do Brasil nas Cortes Internacionais para pressionar o poder público.

'A gente vai acabar fazendo isso por conta destes assassinatos absurdos que vemos acontecer toda hora e todo dia. Tínhamos um projeto de lei no Congresso Nacional e ele virou uma moeda de troca', criticou Keila ao se referir ao projeto de lei complementar 122/06, que tornaria a homofobia crime.

O projeto foi anexado em 2013, passando a tramitar dentro das propostas de reforma do Código Penal após forte embate político dentro da comissão de direitos humanos da Câmara, então presidida pelo deputado evangélico Marco Feliciano (PSC-SP).

'A gente vive no Brasil uma ditadura moral cristã religiosa que está enterrando todos os nossos direitos', ressalta Keila.

De acordo com os dados da Antra, somente em 2013 foram 121 casos de travestis assassinados em todo o Brasil, mas o número pode ser ainda maior devido ao alto índice de subnotificação.

'Outros homossexuais já estão com a violência tão interiorizada que quando são atacados na rua sequer pensam em denunciar porque acham que isso é muito natural', aponta Keila Simpson.

De acordo com Keila, o dia 29, data em que o país celebra o Dia da Visibilidade Trans, é importante para chamar atenção para que estas pessoas denunciem os casos de violência.

'Só tendo números expressivos vamos conseguir constituir políticas públicas e talvez uma lei federal para punir estes assassinatos e essa violência', lamentou a militante. Com informações das agências internacionais de notícias.

 

Fonte; pravda.ru

 


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Transexuais e travestis podem usar nome social no cartão do SUS em SP

 Eu sei que essa informação é do ano passado, mas é sempre bom refrescar a memória né gente ^^.

Documento pode ser emitido em CRT da Vila Mariana, na Zona Sul. Segundo Secretaria da Saúde, medida visa diminuir preconceito.


 Os travestis e transexuais de São Paulo agora podem usar seus nomes sociais em vez do nome do registro de nascimento no cartão do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a Secretaria de Estado da Saúde, a medida entrou em vigor nesta semana e beneficiará aproximadamente 1,5 mil usuários cadastrados no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids (CRT-Aids) da capital paulista.
De acordo a Secretaria de Estado da Saúde, a medida visa reduzir o preconceito da população e evitar que transexuais e travestis passem por quaisquer constrangimentos nos atendimentos das unidades de saúde.
Inicialmente, o cartão com o novo nome só poderá ser emitido no CRT-Aids da Rua Santa Cruz, 81, na Vila Mariana, na Zona Sul da capital. O cartão, porém, é válido para atendimento em qualquer serviço público de saúde do estado.
Para solicitar a alteração do nome, os interessados devem comparecer ao CRT portando apenas um documento de identificação e informar o novo nome a ser inserido no cartão do SUS. A emissão é feita na hora e pode ser realizada de segunda a sexta-feira, das 14h às 19h30.
 
 
Fonte; G1


Cidadania em primeiro lugar

LGBTs receberão carteira do SUS com nomes sociais em evento

Achei super digno...

A Secretaria Estadual da Assistência Social e Cidadania (Sasc), através da Diretoria de Direitos Humanos, em parceria com o Grupo Piauiense de Transexuais e Travestis, comemora, em 29 de janeiro, o Dia Internacional da Visibilidade Trans. A programação inclui entrega de carteiras do SUS com o nome social de travestis e transexuais.

De acordo com a coordenadora de Enfrentamento à Homofobia, da Sasc, Joseane Borges, a data é de comemoração e também de luta. “Temos muitos motivos para comemorar, pois é um dia onde travestis e transexuais de todo o mundo se reúnem para discutir estratégias políticas de desenvolvimento e cidadania para a população LGBT”.
Segundo a coordenadora, o momento atual ainda não é apenas de comemorações, mas também de trabalho. “Vemos os números da violência, inclusive assassinatos, contra homossexuais. Só no ano de 2013, foram registrados 10 assassinatos de travestis no Piauí. Devemos lutar por nossos direitos a fim de acabar com essa triste realidade”, concluiu.
O momento é para refletir e criar planos de ação e estabelecer metas para que a comunidade LGBT consiga o compromisso dos órgãos públicos para  quebrar estigmas e incluir mais a população de travestis e transexuais na sociedade, vencendo quaisquer formas de preconceito.
Neste ano de 2014, o tema do Dia da Visibilidade Trans está voltado para a questão da violência e discutirá, principalmente, o acesso às políticas públicas de proteção à comunidade LGBT e o exercício da cidadania.

Fonte;  Portal do Governo do Estado do Piauí